A PRIVACIDADE DO CASAL HOMOAFETIVO E A ATITUDE COM OS FILHOS, OU COMO NÃO SEPARAR A HOMOAFETIVIDADE DA PATERNIDADE

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Quando falamos de reconstrução ou redefinição da própria masculinidade para o pai de nosso convívio se trata, na prática, de buscar uma forma de estar com os filhos e com o namorado ou companheiro numa rotina doméstica natural. Atividades comuns de qualquer família como assistir um filme com pipoca no final de semana, acordar todos no domingo e ter um café da manhã coletivo, prazeroso, ou até mesmo viajar juntos, se divertir, sem ter que esconder na frente dos filhos o carinho e afeto de casal. A questão muito simples é: preservar a própria privacidade sem negar a relação homoafetiva, sem precisar esconder do próprio filho o namorado ou companheiro.

A experiência de alguns pais serve para que outros repensem suas atitudes. Alguns percebem que precisam ser mais firmes, outros que precisam compreender melhor a fase que os filhos atravessam, mas para a grande maioria é uma questão de delimitar o que é privacidade e intimidade, daquilo que é um receio ou medo de ser natural. Um pai tem estado aflito porque seu filho (13 anos) anda meio quieto e distante dele, desde que se revelou há cerca de 5 meses. Inicialmente aparentava ter aceitado, entretanto o pai percebe que ele tem andado agressivo e mesmo quando semanalmente estão em atividades juntos, permanece calado e isolado.

O pai está com receio de que o filho esteja sofrendo e com dificuldade de aceitá-lo com sua homoafetividade. Agora que está namorando ainda não conseguiu falar com seu filho sobre isso. Uma situação complexa já que seu namorado mora em sua casa nos dias que seu filho não mora; ou seja, estão todos na mesma casa e o filho não sabe disso. Essa situação que já dura mais de um mês tem trazido desconforto ao pai. Ele sabe que precisa encontrar uma forma, e rápida, de solucionar isso.

Os aspectos apontados para o perigo de manter essa situação são os que dizem respeito a segredo e lealdade na relação pai e filho. Embora a preocupação desse pai seja passar para seu filho, de forma natural, que esse namoro é uma relação boa de afeto e respeito mútuo ele não consegue vislumbrar que quanto mais ele esconde, mantém segredo e demora para contar, mais o filho ficará distante e desconfiado de que tem algo estranho e errado nesse tipo de relacionamento. A justificativa do pai é que seu filho ainda não tem idade e portanto, não precisa saber de coisas de sua intimidade, entretanto é exatamente isso que ele desvela e põe em risco quando não lida com respeito e naturalidade com essa situação. De fato o que esse evento desencadeia é a necessidade dos homens e pais que se mantém envolvidos com outro homem revejam como eles se comportam afetivamente, - homoafetivamente - diante de seus filhos que já sabem de sua sexualidade. Porque eles não podem agir naturalmente, com afeto, como um casal de namorado ou como companheiros, no convívio com seus filhos? Dúvidas como manter o quarto com a porta aberta ou fechada se todos dormem na mesma casa, ou como ficar quando os filhos estão perto, dar as mãos, abraçar, ou seja, como manifestar carinho de namorado, de casal, são muito frequentes.

Os pais em sua maioria preferem se esquivar de mostrar que aquele homem que está sempre ao seu lado é muito mais que amigo, é seu namorado e companheiro, é uma pessoa que tem um grande valor afetivo para ele. Eles justificam dizendo que querem preservar seus filhos do preconceito, não querem confundi-los, prejudicá-los, e não sabem o que fazer, o que é correto, adequado. O que pode ser descrito como bom e adequado para o casal e para a família é a naturalidade da manifestação de afeto entre pessoas que se gostam, considerando que valores culturais, de educação, estão presentes na forma como pessoas se relacionam.

O que questionamos sempre é se o problema dos pais não está na imagem que constroem de si mesmos como homem e pai. Se a pessoa com quem esse pai está namorando fosse uma mulher (a mãe de seus filhos, ou mesmo outra mulher após seu divórcio) o pai abraçaria, daria um selinho e colocaria a cabeça no ombro. Também andaria de mãos dadas e quando fossem dormir fechariam as portas. Bem então parece que só os heterossexuais têm direito de usufruir de manifestação de afeto como casal? E as crianças, os filhos desses homens que são homossexuais crescem com o sentimento de que seus pais namoram, ficam e se relacionam, mas que não existe nenhum afeto entre dois homens? Isso não é verdade. Então porque esconder o que é positivo no relacionamento entre dois homens? Será que isso não reforça a ideia de que dois homens só querem saber de sexo? E se é de sexo que se trata é com razão que deve ser preservada a intimidade e privacidade, porque de fato os filhos devem se manter distantes, afastados do comportamento de seus pais na cama, quer eles sejam ainda casados, ou se estão em outros relacionamentos pós divórcio. Não é comum mesmo, nem convém, filhos e pais falarem sobre isso nem quando e como fizeram sexo. Porque a atividade sexual de um casal pertence à esfera privada e como tal é preservada, mantida. A afetividade, entretanto, é um elemento de vinculação que une um casal, é por que existe um bem querer, um gostar, que eles querem ficar juntos. Através da exteriorização do afeto é possível perceber o sentimento positivo que existe entre duas pessoas e isso é muito bem vindo em qualquer grupo, familiar inclusive. O contrário, não mostrar o afeto de casal é não mostrar nada, como se não houvesse nenhum sentimento envolvido nessa relação. É prejudicial para o desenvolvimento de crianças elas crescerem em famílias que se relacionam através da raiva ou agressividade; o contrário, as demonstrações do afeto e carinho existentes reforçam os vínculos positivos e fortalecem os laços familiares.

A dúvida, se a porta de seu quarto deve ficar aberta ou fechada quando seus filhos estão em casa e o namorado ou companheiro também está ali com eles, requer uma solução através da discriminação de assuntos privativos e do convívio familiar. Vejamos os relatos o que mostram:

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Aqui não se trata de esconder ou fazer segredo, que de fato seria prejudicial; nesta situação este pai se confunde. Nós temos sim o habito respeitoso de manter nossa intimidade entre quatro paredes, não é verdade? A porta pode sim ficar fechada, é assunto que diz respeito à preservação da intimidade de um casal; seja o pai e a mãe, homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher. Não fechar a porta dá a entender que os filhos podem entrar e sair na hora que quiserem, sem respeitar aquele espaço, sem pedir licença e que o casal não precisa de intimidade, ou que não existe.

Deixar a porta do quarto do casal aberta é prática comum quando os filhos são bebes, ou estão doentes; maiores (em torno dos três anos), as portas podem ser fechadas para eles entenderem que cada um tem seu espaço. Mais tarde, na adolescência, eles é que fecham as portas para impedirem que os pais invadam sua privacidade, para preservarem sua intimidade e os pais, por sua vez, respeitam. Um casal que dorme de porta aberta dá a entender aos filhos (e aos outros), que aquele espaço pode ser adentrado por quem quer que esteja na casa. E a intimidade do casal fica devastada, invadida. Agir afetuosamente, com naturalidade na presença e companhia dos filhos é inseri-los em sua rotina da vida; é ajudá-los a entender como a sua homoafetividade é algo que só diz respeito à sua intimidade, à sua privacidade. Esconder demonstrações positivas de afeto, de respeito, atenção, cuidado mútuo, limita para os filhos a compreensão das relações afetivas, e neste caso homoafetivas.

® TODOS DIREITOS RESERVADOS - AUTORIA DRª VERA MORIS

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