Entrevista: Site Bota Dentro - 11/05/2016 - Sobre Fala preconceituosa de Patrícia Abravanel

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Li em uma revista que 1/3 dos jovens se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Acho muito. Eu acho que o jovem é muito imaturo ainda para saber o que quer. A gente tem que ensinar que homem é homem e mulher é mulher. Não acho que é legal ser muito liberal. Acho que a gente tem que ensinar para o jovem de hoje que homem é homem e mulher é mulher. E se, por algum acaso, ele tiver alguma coisa dentro dele que fale diferente, aí tudo bem. O que acontece hoje é que nessa coisa de a gente falar que tudo é bom, tudo é bonito, o jovem acaba experimentando tudo. Coisas que eventualmente ele pode se arrepender depois. Sou contra em fazer propaganda em rede nacional (…) Não é uma coisa normal. Eu falar que sou contra, eles vão me apedrejar. Eu não sou contra o homossexualismo, só não sou a favor de falar que é normal. Eu vou pegar mulher agora e vou experimentar. Principalmente para o adolescente e outra, mulher com mulher não é tão legal assim. Não tem aquele brinquedinho que a gente gosta tanto. Não dá para brincar direito. A criança tem que ser criada como homem e mulher.”
Patrícia Abravanel

Por Gustavo T. de Miranda

Tomo a liberdade de reproduzir na íntegra o discurso de Patrícia Abravanel, no quadro Jogo dos Pontinhos, do Programa Sílvio Santos, no último domingo (8.maio.2016), para evidenciar que são vários os preconceitos destilados nessa fala. Alguns me incomodam bastante. São várias ideias arcaicas que não deveriam nem estar em discussão mais ~~ linda, você não devia nem estar aqui. Essa ideia de que dar visibilidade é fazer “propaganda em rede nacional ” do homossexualismo.

Ao dizer que a criança tem que ser criada como homem e mulher, ela coloca em jogo uma série de ideias muito depreciativas: 1) nós, LGBTs, só somos assim porque não fomos criados como “homens” e “mulheres”? 2) por consequência, se não somos normais, não poderemos ser pais normais? 3) nesse círculo vicioso, não poderemos criar filhos e filhas normais?

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Vera Moris, moderadora do Homopater

Por isso, resolvi entrevistar Vera Moris, psicóloga e psicoterapeuta especializada em paternidade homoafetiva, gênero e diversidade. Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, ela é responsável técnica e moderadora do Grupo de Pais Homossexuais de São Paulo, o Homopater (conheça o blog do grupo aqui). Para ela, “infelizmente é comum essa atitude que denota não apenas preconceito mas falta de informação”.

Para ela, o show de desinformação começou com o uso do termo ultrapassado “homossexualismo”. Vera frisa que Organização Mundial de Saúde (OMS) já não utiliza essa palavra há mais de 30 anos. “E quem começa qualquer frase utilizando essa palavra carrega o restante da frase com o preconceito internalizado, mesmo quando diz não ter, pois remete à doença (ela entende normalidade e saúde em contraposição à doença e anormalidade, numa visão muito míope e retrógrada, infelizmente. Não vê, não entende que a homossexualidade é um aspecto natural da sexualidade, assim como a heterossexualidade”.

Vera também enxerga que essa ideia “a criança tem que ser criada como homem ou como mulher” carrega outras inverdades e confusões, próprias de quem não sabe o que é gênero. “Ser criado como homem ou mulher sem que se tenha informação da orientação sexual da criança, impondo padrões pré-fixados, pode ser bastante complicado para o desenvolvimento dessa criança, se ela tiver sua orientação sexual dissonante com o gênero”. Segundo Vera, espera-se que entre 15% e 20 % da humanidade são dissonantes.

A especialista lembra que existem muitos relatos tristes, de sofrimento infantil, causando transtornos ao jovem adolescente e adulto devido a essa rigidez que não respeita a diversidade sexual como natural, normal esperada. “Qualquer criança deve ser criada dentro dos parâmetros de gênero, que necessariamente pode não ser o mesmo do sexo. A educação deve contemplar sempre essa possibilidade”, orienta a psicóloga.

“Um homem, do sexo masculino pode ter orientação sexual diferente do sexo que ele nasceu e foi criado, assim como uma mulher, nascer e ser criada dentro do que é esperado para o sexo feminino não implica que sua orientação sexual será obrigatoriamente heterossexual. Sabemos que homossexuais, bissexuais ou transgêneros foram criados dentro dos padrões heteronormativos, para serem heterossexuais e por parentais heterossexuais. Sexo e gênero são distintos! E Patrícia Abravanel e muitas outras pessoas, até que bem informadas e cultas às vezes (ou ao menos que se dizem se-lo), fazem muita confusão desse tipo quando justificam seus preconceitos….” Vera Moris

A psicóloga faz questão de reafirmar o que a psicologia reza: filhos (nossos ou dos outros) precisam e devem ser criados com os cuidados básicos necessários para seu desenvolvimento físico, psicológico e relacional. “Homens e mulheres no desempenho de funções parentais — que tenham condições de exercerem essas funções — são igualmente competentes para formar, educar e criar crianças. Ainda bem!”, frisa.

Sepultando de vez a questão, Vera mostra que a orientação sexual dos cuidadores (pais) não interfere, não influencia, tampouco prejudica o desenvolvimento de crianças. “Pesquisas têm revelado que os homens, pais e homossexuais são pais competentes, próximos e cuidadores para seus filhos e são tão adequados ou tão inadequados quanto os pais heterossexuais”.

Vera Lucia Moris
São Paulo, Junho de 2016

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