CONSIDERAÇÕES SOBRE FIDELIDADE E RELAÇÕES HOMOAFETIVAS MASCULINAS

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Para homens e pais com relacionamento homoafetivo não existe uma forma simples de se definir fidelidade. Pode ser entendida como um comportamento monogâmico nas relações amorosas entre pares, ou seja, não ter envolvimento (sexual, amoroso) com outra pessoa. A contrapartida de ser infiel é portanto incorrer numa traição.

Devemos levar em conta que existem diferentes nuances nas relações amorosas, físicas e sexuais entre homens. Alguns homens se adequam às regras das relações monogâmicas e vivem satisfatóriamente como casal. Outros, no entanto, não se identificam com esse formato de vida a dois.

A fidelidade também pode ser compreendida dentro da relação pessoal do casal: ser fiel ao consensado, ao acordado, que é combinado entre os pares. É portanto relacional - se alguém romper o que foi tratado incorre numa infidelidade. Aquilo que é acordado não faz mal, não agride, não incomoda; os acordos valem mais do que o peso cultural, moral, religioso.

Dessa forma podemos pensar em fidelidade como a obediência a um contrato préviamente definido pelo par amoroso. Um par amoroso tem seu projeto comum, de vida a dois, de compartilhar da companhia um do outro. Muitas negociações são feitas ao longo de uma vida em comum. Existe cumplicidade, lealdade, cuidado, atenção, carinho e não está apenas relacionado à sexualidade.

Alguns homens pensam ser hipocrisia tentar amarrar as relações amorosas entre homens a uma exigência de monogamia quanto às relações fisicas, sexuais. Entretanto os homens não abrem mão da fidelidade e lealdade ao que é consensado entre o casal.

Neste conceito mais relacional a fidelidade pode não implicar em monogamia sexual. Ela implica em cumplicidade, lealdade ao outro, ao que é valor para o casal. E isso tem conotação sexual, mas não apenas, porque também se refere às questões financeiras, afetivas e até mesmo comportamentais, éticas. Assim, por exemplo, pode ser um valor para o casal assistirem juntos um determinado programa ou seriado na TV; se houver ruptura nesse acordo de uma das partes o outro pode se sentir traido, incomodado, chateado porque houve deslealdade, infidelidade ao pacto previamente acordado.

Nessa forma de compreender as relações, trazer uma terceira pessoa para um jogo sexual do casal - de comum acordo pode ser visto como uma brincadeira estimulante e interessante que pode contribuir para a melhoria das relações do casal. E isso não é entendido como infidelidade, já que está previsto no acordo de respeito mútuo desse casal.

Infidelidades e traições - não necessáriamente de teor sexual - corrompem as relações amorosas. Aquele que rompe com o contrato, com o combinado, de alguma maneira sente que trai, sente que é infiel, e portanto sente culpa.

Alguns homens que foram casados com as mães de seus filhos podem ter internalizado um modelo heterossexual de ser casal, de se envolver amorosamente. Esse modelo pode carregar aspectos de cultura machista, na qual "ser um garanhão", estar sempre pronto e desejando sexo, cobrar fidelidade "do outro", mas nem sempre estar disposto a isso... são aspectos que subjazem às relações de alguns casais.

É um fato hoje em dia que existem sinais de decadencia nesse antigo modelo tradicional de união heterossexual. As relaçoes entre pessoas que querem estar junto - porque, se gostam e formam um par amoroso - estão sendo revistas com favorecimento do companheirismo na parceria amorosa. Isso indenpendendo de serem hetorossexuais ou homossexuais.

O envolvimento entre dois homens pode ser diferente - ou não - daquele de casais heterossexuais. Eles são iguais, dois homens, são competitivos, precisa haver negociação. Um valor que pode ser adquirido no decorrer da experiência entre homens é que a vida a dois pode ser mais satisfatória, porque pautada em verdade, sinceridade, não sendo necessário permanecer como casal se não existe mais o afeto, o companheirismo, o sentimento.

Os acordos sobre como serão as experiências de um casal de homens são importantes para validar suas necessidades e suas verdades. O estabelecimento de sociedades de casamento entre homens hoje é possível mas pode não ser fácil. Não se trata apenas de viver com alguém para aplacar a solidão, visto que o homem também quer se apaixonar, quer se envolver amorosamente, gostar e ser gostado. Viver com alguém pactuando como deve ser sua relação demanda vontade; há que se tecer fio a fio o firme manto da relação que se quer ter!

Em casais discordantes (quanto à idade, quanto à nivel cultural e financeiro) os desníveis podem trazer complexidades maiores, mas que podem ser compensadas pelo cuidado, pelo afeto e principalmente pelo zelo ao que for pactuado, negociado. Novamente aqui vale a mesma regra: que o que for acordado entre os pares não incomoda.

A idealização romântica: encontrar alguém parceiro para uma vida inteira com quem se viverá um eterno e delicioso idílio romântico, como dois apaixonados para sempre. Isso lembra muito os contos de fadas, as Cinderelas, Rapunzéis, Belas Adormecidas.... Mas paralelo a esse desejo, algo melancólico e frustrado, os homens estão construindo possibilidades de vida a dois; eles são os agentes de seu jeito de viver, de relações saudáveis, sem muita receita de como fazer isso, já que o que importa mesmo é viver bem, com satisfação e orgulho do caminho trilhado.

O modelo? Não existe, nem tem nome. Dentre os diversos tipos, como monogâmico, poligâmico, poliamor, com ou sem triângulos amorosos.... não importa, todos são possíveis. As relações são uma construção, onde os pactos bilaterais de fidelidade, são cumpridos até que se renegocie; os acordos estão em constantes ajustes.

Para os homens que são pais, e que tem envolvimento homoafetivo, não há consenso quanto à exigência de fidelidade num relacionamento amoroso. Alguns não concebem um envolvimento com a presença de mais alguém; se dizem monogâmicos e por isso naturalmente fiéis ao parceiro. Outros não vêem que a presença de outro alguém, num momento de lazer, por prazer sexual, possa afetar sua relação amorosa; até afirmam que não entendem como um simples ato sexual possa modificar todo envolvimento afetivo, amoroso que o casal compartilha há anos. Alguns ainda não sabem bem o que pensar sobre relações amorosas entre homens e o lugar que ficaria o desejo e a necessidade sexual, que a maioria afirma ser premente e muito presente entre homens. Estes, parece-nos, esperar uma receita, um modelo garantido que dê certo, mas que na verdade, não existe, porque precisa ser construído por eles mesmos. Então, mãos a obra!

Vera Lucia Moris
São Paulo, Abril de 2017



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